Emprego para moradores de rua

Izabel MelloColunistas, NOVO4 Comments

Por FILIPE SABARÁ, FILIADO DO NOVO, Secretário de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo.

 

O morador de rua Wlademir Delvechio, de 33 anos, é uma das cerca de 20 mil pessoas que dormem ao relento, em São Paulo.

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Ele virou notícia na Folha ao transformar um canto embaixo do Minhocão numa sala decorada com esmero, mesmo que ali não seja um local adequado para se morar -é insalubre viver embaixo de um viaduto por onde passam milhares de automóveis e dez linhas de ônibus por dia.

As reportagens sobre Wlademir não afirmavam que a vida dele era boa, mas isso ficou subentendido, uma vez que ali era a “casa” dele. Há algo de errado numa sociedade que se encanta com o lar improvisado de um homem numa calçada.

Há algo de estranho, também, no pensamento de que manter o “fluxo” (agrupamento de usuários de crack) da antiga cracolândia é respeitar direitos humanos, é preservar a liberdade do cidadão de usar drogas e de viver como bem entender.

Mas tudo o que não há no “fluxo” e na calçada-dormitório é respeito. Vi pessoas dormindo em barracas no asfalto da rua Dino Bueno, defecando no espaço em que dormiam, subjugadas por traficantes.

O tráfico investe recursos para continuar lá, sustentando o sofrimento daquelas pessoas em nome do lucro. Também estão na região 167 agentes da Assistência Social, abordando diariamente os usuários. É um trabalho delicado, que requer formação de vínculo.

Por isso, às vezes, os agentes chegam a se desentender com policiais. Quase sempre o conflito se resolve rapidamente. Afinal, ambos os lados têm o mesmo objetivo: ajudar aquelas pessoas.

Com esse mesmo espírito, Wlademir foi abordado, ouvido, acolhido, fez cursos de capacitação profissional, aguardou demais por um tratamento dentário que não saiu, tempo que, infelizmente, a maioria da população ainda espera no serviço público.

É assim que funciona o cotidiano da assistência social, com idas e vindas, recaídas e retornos. Dificuldades que têm sido vencidas com sucesso pelo programa Trabalho Novo. Por isso, não desistimos de Wlademir.

Desde janeiro, 1.045 moradores de rua foram contratados pelo programa, com 91% de retenção. É a primeira iniciativa pública voltada para a empregabilidade da população vulnerável de São Paulo, que envolve profissionais de recursos humanos, empresários e agentes públicos. Até então, a prefeitura oferecia apenas acolhida e capacitação.

O Trabalho Novo deveria receber o apoio da sociedade, incluindo meios de comunicação, por quebrar paradigmas de seleção de pessoal, por arrumar emprego para pessoas desconsideradas pelo mercado, como idosos e transexuais. Por representar, sobretudo, um pensamento livre da polarização política que embrutece o nosso país.

Somos uma sociedade presa a uma rotina de escassez, consumo e desperdício. Descartamos objetos e pessoas, diferentemente do planeta em que vivemos, que reaproveita tudo. Como diz o economista belga Gunter Pauli, “não há desemprego na natureza”.

O programa da Prefeitura de São Paulo resgata a importância do trabalho, tanto como função social dos empresários quanto como motivação pessoal para o empregado. É disso que precisamos no país.

Sobre o fim da cracolândia, penso como o arquiteto americano, ideólogo do empreendedorismo, Richard Buckminster Fuller: “A melhor maneira de mudar algo não é lutar contra ou resistir, mas criar formas que tornem a questão obsoleta”.

Assim como é obsoleto pensar que o problema de Wlademir seja o crack ou a falta de moradia, pois são múltiplas as necessidades e fatores para que alguém como ele tenha uma vida que faça sentido numa cidade como São Paulo.

 

FILIPE SABARÁ, empresário, é secretário de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo

4 Comments on “Emprego para moradores de rua”

  1. Infelizmente o Wladimir depois de aparecer na reportagem, seu irmão veio buscá-lo, levou para casa( outro estado) reencontrou sua mãe mas preferiu voltar e morar novamente no mesmo local.A prefeitura fez sua parte,além de ajudá-lo inclusive com a capacitação de curso para um emprego mas como muitos ,não querem trabalhar pq vão ter que cumprir horários e normas no trabalho.

  2. Caro Filipe Sabará, ainda não o conhecia, mas foi uma grata satisfação ver um colega do NOVO tratando de forma tão sensível – e ao mesmo tempo pragmática – a questão social. E ainda por cima resgatando um tema que os partidos de esquerda se arvoraram como únicos paladinos. Vamos aos poucos conquistando espaço também nessa área.

    Forte abraço e pleno sucesso à frente da SADS.

    Francisco Novellino
    Filiado – NOVO-RJ

  3. Fantástico ! O partido NOVO vem me surpreendendo. Tenho um site em Taboão da Serra, (Taboão Digital) e o mínimo que posso fazer é repercutir seu texto prezado Filipe!!

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