Diários da Resistência, 13 de março de 2017

Izabel MelloIves Braghittoni, ReformasLeave a Comment

Por Ives Braghittoni

Não sei se alguém vai ler isso, mas quero registrar mesmo assim. Pode ser culpa, ou esperança, ou medo, chame como quiser. É difícil escrever no escuro, mas sair dos subterrâneos é perigoso demais. Hoje faz 3 meses da aprovação da (ai, meu Deus!) PEC do Fim do Mundo, então acho que devo isso a mim mesmo.

Um pouco de luz aqui ajudaria, mas mesmo acender uma vela é um risco excessivo. Os Tucanossauros, pavorosos vigias robóticos de tecnologia extra-terrestre, patrulham cada palmo aqui de Cotia. Os mais perigosos, claro, são aqueles com aparência de pterodátilo; eles têm a face do José Serra para serem ainda mais assustadores e gritam “quem assume é o Aéeeeecio!!!” quando despencam dos céus sobre suas vítimas. Só os esgotos ainda são seguros, mas há boatos de que, em São Paulo, já há Tucanossauros específicos para patrulhar esse último reduto da Resistência. Como fomos tolos em achar que o PSDB era praticamente igual ao PT! Ingênuos, nós os chamavam de “socialistas azuis”. Quem poderia adivinhar que eles estavam mancomunados com os reptilianos?

Temer-o-Temível, claro, é um desses reptilianos; parece até que é um dos chefes deles. Um dos líderes da resistência chegou a perguntar uma vez “ué, mas ele não era vice da Gilma Rocefe?…” Nunca mais foi visto. Tempos de desespero pedem medidas desesperadas.

Tento ser condescendente comigo mesmo. Achávamos, com base em séculos de história, com base na lógica e nos fatos, com base em TODOS os países bem-sucedidos no mundo, que o liberalismo era a saída, que a livre concorrência e o direito de propriedade deveriam ter respeito absoluto, que o estado precisava ser radicalmente diminuído. Como estávamos errados! Achávamos, suprema heresia, que a PEC do Fim do Mundo, na verdade, era muito pouco, ainda que fosse um bom começo. Afinal, ela não diminuía o estado; ela não diminuía o gasto do estado; ela nem ao menos impedia o estado de gastar mais do que arrecadava! Ela, APENAS, determinava que o gasto colossal do estado deveria ser igual ao do ano anterior, ainda que com várias exceções e ainda que com a correção da inflação.

Achávamos, nós idiotas, que isso na verdade adiantava pouco, porque é o próprio estado que tem o monopólio da moeda e o monopólio dos juros (sim, você consegue acreditar que eu, enfiado aqui nesse esgoto, vendo o mundo desmoronar enquanto fujo dos Tucanossauros, cheguei a acreditar que o BACEN deveria ser extinto?!?…), então o próprio estado determina quanto vai haver de inflação… Bom, mas achávamos que era um bom começo, que era melhor do que nada.

Bem, isso era o que achávamos. Só começamos a perceber que algo estava realmente errado quando os prédios começaram a derreter. Foi na Av. Paulista que começou, alguns dias depois da aprovação da PEC do Fim do Mundo, o horror que selaria nossos destinos: os prédios estavam derretendo diante de nossos olhos! Em menos de três dias, tudo que restava dos edifícios era o concreto liquefeito inundando as ruas. No quarto dia os polos magnéticos da Terra foram misteriosamente invertidos e, nesse processo, as tempestades solares (amplificadas pelos reptilianos, claro) fustigaram impiedosamente nosso planeta por várias horas. Muitos pereceram pela radiação; as plantações e os rebanhos foram devastados. Os mares começaram a evaporar na segunda semana, seguidos dos rios no mês seguinte. Os líderes da Resistência não falam para não causar ainda mais pânico, mas todos sabem que até a rota da Terra foi alterada e estamos, neste exato momento, nos afastando do Sol e começando a mergulhar no espaço vazio. As únicas coisas que permanecem iguais e intocadas, óbvio, são o imposto sindical, o fundo partidário, o foro privilegiado e o fato de que o Lulla continua solto. (É mais fácil alterar a rotação do planeta do que mexer em qualquer uma dessas coisas, como até os reptilianos descobriram).

Como poderíamos imaginar que era a gastança alucinada do estado que impedia tudo isso? Como poderíamos saber que era com o estado criando dívidas impagáveis, gerando déficits absurdos para nossos filhos e netos que se evitava de prédios derreterem, do mar evaporar e da Terra se afastar do Sol?

 

Bem, nós deveríamos. Agora é tarde.

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