Inútil voto útil

Izabel MelloCauê Bocchi, NOVOLeave a Comment

Nada é mais curioso do que o paradoxo que existe em muitos dos eleitores que julgamos bem educados, politizados, etc. Eles são os primeiros a dizer que a política no Brasil precisa de renovação, de um recall. São eles que dizem que diversas reformas são necessárias – e alguns notórios exemplos aqui são a reforma política, previdenciária, trabalhista e tributária. O diagnóstico dessas pessoas tão inteligentes é em geral bastante preciso. Quando perguntamos, contudo, como elas vão votar para presidência, governo, senado, etc., em 2018 elas apontam para aquelas legendas que todos nós votávamos alguns anos atrás por pura falta de opção. Ou seja, elas querem tudo diferente, mas votam igual. É uma síndrome de Estocolmo crônica da qual parecem sofrer esses nossos sábios eleitores.

Claro que existe uma explicação racional para esse aparente paradoxo: afinal, estamos falando com eleitores de inteligência superior. O NOVO, dizem eles, é um partidos de ideias e valores admiráveis; o problema é que vai ser incapaz de mudar alguma coisa porque não vai ter base no Congresso para mudar algo, ou porque é muito idealista e não sabe jogar o “jogo político”, etc. Assim, eles continuam, mais prudente votar naqueles partidos menos ruins – de modo a evitar que  os  piores sejam eleitos. Esse raciocínio é simples e lógico, devemos admitir. Ele é também medroso e covarde, permitam-me dizer. O voto útil é uma perversão da democracia.

O problema do eleitor do voto útil não é o fato dele votar diferente da gente: muita gente discorda do NOVO porque acredita em outras propostas. O problema é que muitas vezes ele concorda com o NOVO, mas tem medo de assumir isso na urna. É Gente que sabe o que deveria ser feito, mas que por alguma razão acha que não somos merecedores daquilo que é excelente: gente que confunde prudência com mediocridade e ainda parece ter orgulho disso. Claro que ninguém aqui é bobo, e ser idealista não quer dizer ser ingênuo. Sabemos que os desafios de um partido como o NOVO no Congresso Nacional serão enormes, mas a alternativa é a inação, é deixar tudo como está – e esse cenário é inadmissível. Mas a pergunta persiste: como eliminar a barreira do voto útil?

A primeira parte da resposta está em 2016. Temos um vereador em cada uma de quatro das principais capitais do país: São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte. Nossos vereadores são minoria em cada uma das respectivas Câmaras de Vereadores, mas isso não impediu, por exemplo, que a Janaína Lima fosse a vice-presidente da Comissão de Constituição e Justiça de São Paulo – a mais importante comissão no âmbito do poder legislativo municipal. Não impediu também que o Felipe Camozzato tivesse total protagonismo em impedir o aumento do IPTU em Porto Alegre, mesmo que com todos os esforços em sentido contrário da grande maioria dos seus colegas vereadores. Os cortes drásticos das verbas de gabinete que todos os vereadores do NOVO fizeram hoje são copiados por diversos outros vereadores, mesmo os nossos mais ferrenhos opositores (tudo bem que o corte deles não tem sequer uma sombra do nosso grau de rigor). A mensagem aqui é que o bom exemplo também gera mídia, e o poder das notícias, redes sociais, etc., muitas vezes valem mais do que qualquer base nas casas legislativas. Vale lembrar aqui que o NOVO é o segundo partido mais curtido do mundo –atrás somente do Partido Republicano dos EUA (e não por muito tempo, no que depender da gente). Pode parecer que não, mas já temos um grande poder em nossas mãos.

A segunda parte da resposta está no passado recente. Vejamos o exemplo de Trump: independentemente de qual seja a nossa opinião a respeito dele, o fato é que ele saiu do nada – não tinha o apoio sequer do próprio partido – e foi eleito presidente dos EUA, e isso contra uma representante do establishment do poder político dos EUA. Podemos também destacar o exemplo de Macron na França, um jovem proveniente do mercado financeiro que criou um novo partido e saiu do quase anonimato à eleição para presidência da França em tempo recorde. França e EUA são países tão complexos politicamente quanto o Brasil, e isso não os impediu de chegarem à presidência de seus respectivos países. A mensagem aqui é que não podemos ter medo da política tradicional: é a política tradicional que precisa ter medo da gente. Nós vamos tirar eles do poder, e os que ficarem serão pressionados a nos seguir pelo exemplo – que pragmaticamente saberemos divulgar, em benefício do idealismo que os críticos chamam de ingenuidade.

Dizemos que o Brasil é o país do futuro. O problema do futuro é que ele por definição nunca chega. 2018 é uma oportunidade sem precedentes para mudarmos essa situação. O sucesso da Lava-Jato, a condenação de Lula e o ostracismo de Aécio são alguns dos exemplos que demonstram que o Brasil parece ter começado a acordar. Desperdiçar essa oportunidade para votar em quem parece “não ser tão ruim assim” é um pecado imperdoável. É uma pretensa sabedoria, cuja estupidez não poderia ser mais óbvia. Essas pessoas estão no nosso círculo de amigos, trabalham conosco, são da nossa família. Ou seja, o convencê-las a votar por um Brasil mais admirável está ao nosso alcance. Não existe desafio para o NOVO em 2018 maior do que esse, e agora é a hora de mostrarmos o nosso poder de realização. Já se foi o tempo em que votávamos em quem não estava à altura do nosso voto. O voto útil é inútil para o Brasil que merecemos.

 

Por Cauê Bocchi, advogado formado pela FGV-SP e Secretário de Finanças do NOVO no município de São Paulo

 

 

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