O iceberg da negligência

Izabel MelloColunistas, Engajamento cívico, LEONARDO CARDILI, NOVO0 Comments

Nos primeiros meses de 2018, convido nossos leitores a refletir a partir de um marco que silenciosamente se aproxima, do qual seremos testemunhas privilegiadas: o segundo centenário da Independência do Brasil. Apesar de imperceptível diante do turbilhão de informações fugazes que incessantemente consomem a atenção da subtotalidade da população, ressalto que estamos próximos de um marco histórico secular. Para o melhor de meu entendimento, esse marco de relevância nacional, comparável à passagem de um cometa, permanece longe do interesse das mídias e das instituições em geral.

 

Não me proponho a enaltecer comemorações cívicas. Com esse convite inusitado, chamo atenção para a negligência com que tratamos nossa história e nossos temas nacionais, por mais simples e previsíveis que sejam. Trata-se de um comportamento coletivo recorrente que se tornou mais evidente ao longo das últimas duas décadas com a revolução digital: a negligência em relação a assuntos nacionais cujo intervalo de ação seja maior que alguns anos.

É reconhecida a tendência do brasileiro de postergar ao máximo a decisão sobre assuntos de qualquer natureza, inclusive os importantes, tanto no âmbito público quanto no privado. Há um largo repertório de expressões para esse fenômeno: “empurrar com a barriga”, “deixar para a última hora” ou “aqui no Brasil sempre foi assim”. Essa negligência é amplamente tolerada e por vezes socialmente estimulada, de modo que, aliada a uma criatividade algo interessada também comum ao brasileiro, não costumam faltar argumentos para justificá-la.

Embora possa parecer um detalhe sutil à primeira vista, quando atinge a esfera nacional constatamos que tal comportamento representa uma condição pouco inocente. A negligência em relação ao bicentenário é bem ilustrativa: trata-se de um marco nacional relevante, previsível e inexorável cuja existência, tudo indica, será ignorada até as vésperas da data. Ela revela como nosso debate público, mesmo em ano eleitoral, permanece pautado no imediatismo. Nesse sentido, o exemplo do bicentenário é somente a ponta de um imenso iceberg. Somos negligentes em relação à nossa história, à nossa população, às nossas fronteiras, às nossas cidades, às nossas escolas, aos nossos cemitérios. Em última análise, como sociedade, temos sido negligentes em relação a nós mesmos.

Ao observarmos as preliminares do debate público em ano de eleições nacionais, notamos que os holofotes permanecem voltados para temas de efeito imediato em detrimento do debate de questões estruturais, com real potencial transformador. De um modo geral, temas fundamentais têm sido abordados somente diante de risco iminente de colapso. Nas sociedades democráticas do século XXI, junto às quais nos incluímos, as eleições nacionais representam um momento importante para a discussão de temas relevantes ao futuro da nação. A partir do debate de propostas sobre questões estruturais são elaboradas as ações transformadoras a médio e longo prazo. Um indivíduo livre e consciente de sua responsabilidade como eleitor acompanha o debate eleitoral de forma racional e não se deixa iludir por propostas populistas, as quais, em tempo de eleições, sempre se proliferam, apontando soluções fáceis para problemas complexos.
Voltemos ao marco do centenário. Não do segundo, que se aproxima, mas do primeiro, que ficou no passado. Em 1922, os organizadores de um movimento artístico-cultural aproveitaram o momento de efervescência das vanguardas artísticas da época e associaram seu empenho ao marco histórico da ocasião. Eles transformaram “a passagem do cometa” em uma oportunidade de reflexão, transformação e amadurecimento, remodelando em definitivo a percepção de identidade nacional e influenciando futuras gerações. Apesar de não ser propriamente uma questão estrutural, um marco de centenário nacional sempre representará uma janela de oportunidade que raramente se abre.

De fato, se quisermos transformar o nosso país em um lugar melhor precisamos superar a imensa e silenciosa negligência que flutua no quotidiano oceano brasileiro. Que o bicentenário que se aproxima seja encarado como uma oportunidade única para promover a verdadeira transformação nacional.

 

Por Leonardo Cardili,  médico e  filiado do NOVO 

 

 

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